quinta-feira, 15 de novembro de 2007

ACTO XIII

«VINTE DE SETEMBRO, DOIS MIL E SETE,
QUATRO HORAS, MAIS TRINTA E SETE. »



É tão vasta a noite onde estou agora.
Tão despovoada.

A noite portuguesa tem o perfume a suor de trabalho, e o eco duro da miséria.
A noite parisiense transpira a vazio, ainda que pérola.
Mas a noite lancastriana concebe o silêncio.

Tento, em vão, ler para não ouvir o silêncio.
Pensar depressa para disfarçá-lo.
Cravar a vista no computador, inventando utilidades fúteis.
...Frágeis pontes, que mal liga ao subitamente horror do dia de amanhã.


Também tu és um silêncio que não dorme:
insone; imóvel; terrível.

És um silêncio sem promessas.
Um silêncio sem respostas.

Ardes, em silêncio,
em mim,
para mim,
de mim,
no momento em que anseio o tempo que não acabará, jamais.

O momento igual ao de tantos, que num hoje se estinguem grotescamente.

Os tais que se unificam para se aprenderem a desaprender, para que se aprendam eternamente.




(Se te não expressei o inexpressível silêncio que me és,
apenas me resta saber que te sou.
Eu sou.
Não sei o quê.
Mas sou.
E quero ser-te, comigo.)