Marc Chagall
Pela primeira vez senti que não tinha nada a dizer, apenas ouvir, reflectir
na ansiedade de querer falar
entregue ao silêncio
porque argumentar muitas vezes sai caro.
Há conversas que não me pertencem, e nesses instantes dou por mim a entregar-me a um voo de longa duração.
Do meu corpo (a)fora
os pés descolam do chão e lá vou eu embalada na ansiedade
que me atormenta diariamente por não vos sentir.
Por vezes questiono-me se a minha vida não é
na verdade
desenhada dessa forma; uma eterna ansiedade por não sei bem o quê.
Pego na minha caneta mental e masturbo-me numa oratória espiritual
que ninguém dá conta que existe em mim.
E a solidão acaba por ser precisamente isso - um orgasmo que só nós sabemos como atingir, absorver e gritar pelos poros.
Contudo, para lá chegarmos é sempre necessário inspirações
de fora.
É neste ponto que abro os olhos, a dou por mim a aterrar bruscamente.
Lembro-me de Marquês de Sade ter (d)escrito que "o homem está sujeito a duas fraquezas ligadas à sua existência, que a caracterizam. Em toda a parte tem de rezar, em toda a parte tem de amar, e eis a base de todos os romances; fá-los para pintar os seres que implorava, fá-los para celebrar os que amava."
Não sei se concordo. Ou então não nasci para escrever romances.
É que as minhas inspirações e fraquezas são tantas, quantos os silêncios das minhas masturbações mentais expelidas pelas palavras que me corroem quando as não escrevo.
