quarta-feira, 30 de abril de 2014

Acto LVIII

Ontem sentei-me entre pessoas que não ouvem.



                                                                                                                                  Marc Chagall







Pela primeira vez senti que não tinha nada a dizer, apenas ouvir, reflectir 
na ansiedade de querer falar
entregue ao silêncio
porque argumentar muitas vezes sai caro.


Há conversas que não me pertencem, e nesses instantes dou por mim a entregar-me a um voo de longa duração.
Do meu corpo (a)fora
os pés descolam do chão e lá vou eu embalada na ansiedade
que me atormenta diariamente por não vos sentir.


Por vezes questiono-me se a minha vida não é
na verdade
desenhada dessa forma; uma eterna ansiedade por não sei bem o quê.


Pego na minha caneta mental e masturbo-me numa oratória espiritual
que ninguém dá conta que existe em mim.
E a solidão acaba por ser precisamente isso - um orgasmo que só nós sabemos como atingir, absorver e gritar pelos poros.
Contudo, para lá chegarmos é sempre necessário inspirações 
de fora.


É neste ponto que abro os olhos, a dou por mim a aterrar bruscamente.


Lembro-me de Marquês de Sade ter (d)escrito que "o homem está sujeito a duas fraquezas ligadas à sua existência, que a caracterizam. Em toda a parte tem de rezar, em toda a parte tem de amar, e eis a base de todos os romances; fá-los para pintar os seres que implorava, fá-los para celebrar os que amava."


Não sei se concordo. Ou então não nasci para escrever romances.
É que as minhas inspirações e fraquezas são tantas, quantos os silêncios das minhas masturbações mentais expelidas pelas palavras que me corroem quando as não escrevo.



terça-feira, 1 de abril de 2014

Acto LVII

mudez interior,







Grito para fora
bem dentro
das entranhas que me estranham
a alma
neste dia em que nada me consegue sair.


Fica o grito,
aqui entalado,
e eu sem saber como fazer
para não
(te)
vomitar.


És tão sinistramente cínico,
vazio de cor
(anémico!)
fingidor,
fingindo
tão bem que até parece que a esperança existe,
sem ser só no dicionário.




{e eu questiono-me sobre o que seria de mim
se as (minhas) palavras só existissem no dicionário...}




Se é no dicionário que as palavras te existem,
é em mim que elas significam,
numa definição indefinida,
constrangida e interrompida
pela ausência de brilho
nesse teu vocabulário
morto...

... fechado-trancado,
abafado-intoxicado,
entediado,
desfigurado,
tenebroso,
silencioso
e
ssshhh...
sshh...
sh...





Nunca poderiam existir palavras em nós
neste gélido silêncio
nosso.

Pois é quando tu decides palavrear-te
que eu ensurdeci
já.