terça-feira, 21 de outubro de 2014

Acto LIX





As pessoas já não se cortejam. Comem-se.

Vão prolongando a fome numa mendacidade apelidada de amor,
como quem tem a certeza de que esse ensejo é uma verdade interior.

Falso.

Este tipo de coisas denominam-se de sensações aleatórias,
pequenas vitórias em conquistas egoístas
numa extrema fome d'ego masturbatório.
Um petit-gâteau para os imberbes individualistas
pequenas sonhadoras, coristas de um cabaret carnal
consumado numa teia de quimeras, muitas vezes fatal.

Fluidez.

Acontece a toda a gente; sentir o palpitar vulvário
desde criança, fechado no armário, porque não é suposto
cunhar a lealdade, e muito menos saciar a veracidade de um não-amor.
Cheira a frigidez quando a tempestade treme o chão,
e nem por isso deixamos de comer - até que a fome nos separe! - 
porque é mais fácil repetir o prato do que dizer simplesmente "não".

(E já chega!)

A melhor parte de escrever um livro, é meter-lhe um ponto final;
acabemos com esta farsa de tomar o âmago por carnal!
Mas é mais fácil comer-se-a-pronto do que o pé a fundo na espiral.

terça-feira, 6 de maio de 2014

::.. Intervalo ..::



 ::..  ,  ..::



Don't you ever cross that bridge in your mind again.
It's like a movie screen.






quarta-feira, 30 de abril de 2014

Acto LVIII

Ontem sentei-me entre pessoas que não ouvem.



                                                                                                                                  Marc Chagall







Pela primeira vez senti que não tinha nada a dizer, apenas ouvir, reflectir 
na ansiedade de querer falar
entregue ao silêncio
porque argumentar muitas vezes sai caro.


Há conversas que não me pertencem, e nesses instantes dou por mim a entregar-me a um voo de longa duração.
Do meu corpo (a)fora
os pés descolam do chão e lá vou eu embalada na ansiedade
que me atormenta diariamente por não vos sentir.


Por vezes questiono-me se a minha vida não é
na verdade
desenhada dessa forma; uma eterna ansiedade por não sei bem o quê.


Pego na minha caneta mental e masturbo-me numa oratória espiritual
que ninguém dá conta que existe em mim.
E a solidão acaba por ser precisamente isso - um orgasmo que só nós sabemos como atingir, absorver e gritar pelos poros.
Contudo, para lá chegarmos é sempre necessário inspirações 
de fora.


É neste ponto que abro os olhos, a dou por mim a aterrar bruscamente.


Lembro-me de Marquês de Sade ter (d)escrito que "o homem está sujeito a duas fraquezas ligadas à sua existência, que a caracterizam. Em toda a parte tem de rezar, em toda a parte tem de amar, e eis a base de todos os romances; fá-los para pintar os seres que implorava, fá-los para celebrar os que amava."


Não sei se concordo. Ou então não nasci para escrever romances.
É que as minhas inspirações e fraquezas são tantas, quantos os silêncios das minhas masturbações mentais expelidas pelas palavras que me corroem quando as não escrevo.