sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Acto LIII



Source: "Angela's Ashes"





Assusta-me a inconsciência da competição de experiências,
e não
não é um início de um poema aleatório.


Levemente passa-me pelos olhos a visão da partilha, onde há sempre uma dor em comum, um gosto em comum, uma morte em comum, um cheiro comum, como que um bando de paralelismos que a ciência não pode explicar. É assim, e pronto.

Recorda-me o Ricardo que aos doze anos só sabia pavonear-se pela escola com a bola de futebol debaixo do braço direito, como que um troféu de algo que nunca ganhou, porque na verdade nunca o vi jogar porra nenhuma. Foram 3 anos da minha vida em que o detestei pela arrogância típica de um miúdo que tudo tinha, mas nada fez para ter o que quer que fosse. Invejava-o, até, pela popularidade que alimenta o ego de um pré-adolescente massacrado pela classe média-alta (alta, a média, naquele tempo!).

Cheguei então ao secundário, e quando li a lista de alunos da minha turma lá estava ele - o Ricardo.

- Vamos ser da mesma turma!

um eco perturbador.





Ironia:

Foi com ele que aprendi a rir das coisas más. E numa primeira conversa séria, descobri que tinha sido ele o menino que entornou o balde de tremoços no Mil & Tal e que levou aquela carolada na cabeça (que ainda hoje lhe ouço o som) do amigo do meu pai. Foi ele o menino que nos incentivava a mandar os legos para dentro das panelas de sopa do Externato.

É ele o menino,
hoje homem feito,
desfeito e refeito,
que conheço há mais anos da minha vida.

Mesmo não o conhecendo de todo...



Paralelamente falando, existe sempre um Ricardo a cada vida que me cruza o caminho. Giro é ver-lhe o papel por lá.