Source: "Angela's Ashes"
Assusta-me a inconsciência da competição de experiências,
e não
não é um início de um poema aleatório.
Levemente passa-me pelos olhos a visão da partilha, onde há sempre uma dor em comum, um gosto em comum, uma morte em comum, um cheiro comum, como que um bando de paralelismos que a ciência não pode explicar. É assim, e pronto.
Recorda-me o Ricardo que aos doze anos só sabia pavonear-se pela escola com a bola de futebol debaixo do braço direito, como que um troféu de algo que nunca ganhou, porque na verdade nunca o vi jogar porra nenhuma. Foram 3 anos da minha vida em que o detestei pela arrogância típica de um miúdo que tudo tinha, mas nada fez para ter o que quer que fosse. Invejava-o, até, pela popularidade que alimenta o ego de um pré-adolescente massacrado pela classe média-alta (alta, a média, naquele tempo!).
Cheguei então ao secundário, e quando li a lista de alunos da minha turma lá estava ele - o Ricardo.
- Vamos ser da mesma turma!
um eco perturbador.
Ironia:
Foi com ele que aprendi a rir das coisas más. E numa primeira conversa séria, descobri que tinha sido ele o menino que entornou o balde de tremoços no Mil & Tal e que levou aquela carolada na cabeça (que ainda hoje lhe ouço o som) do amigo do meu pai. Foi ele o menino que nos incentivava a mandar os legos para dentro das panelas de sopa do Externato.
É ele o menino,
hoje homem feito,
desfeito e refeito,
que conheço há mais anos da minha vida.
Mesmo não o conhecendo de todo...
Paralelamente falando, existe sempre um Ricardo a cada vida que me cruza o caminho. Giro é ver-lhe o papel por lá.
