Estou
reduzida “a um espectador inútil, sofrendo o que se passa sem poder intervir, e
a minha indignação e a minha angústia crescem.”
(Aguenta-te!)
Mas é
difícil aguentar positivamente. “Noites sobressaltadas, despertares cansados, a
raiva da injustiça. Vou arranjando forças para continuar a escrever mas esta
pequena coisa dentro de mim tenta destruir-me a energia.”
Desde que me conheço que passo a minha vida entre as aspas de quem sente,
aproximadamente, o mesmo que eu – digo, sem saber pois o mais certo é que - pode
sempre ser pior ou melhor.
Vivo entre citações de escritores e poetas, cineastas e entusiastas de
diálogos profundos, de músicos e letristas, por entre as mil fendas da calçada
que vou palmilhando.
Existo-os, em mim.
Dá a sensação de que, na verdade, nem palavras minhas sei ter; nem
pensamentos, sentimentos, sensações e emoções. Tudo é dos outros, e fundir-me é
um processo doloroso.
Orwell dizia; “os animais são todos iguais, mas há uns
mais iguais que outros”, e ainda hoje me questiono se o mais igual é ser
diferente e se o diferente não é, na prática, ser igual a todos.
(Fecho-me.)
Sinto-me tarde demais.
Nem tão pouco seria como uma exaustão ciclica em que
a implosão se torna numa descompensação momêntanea, não!, não é isso, é chegar
a conclusões tão finitas que se tornam infinitas e aceitar o inaceitável.
Esgotar a alma, a essência, o amor.
(Falo tanto de amor sem dar conta... até parece que nunca o tive... tive
sim e tive sorte também. Ainda ontem falei da minha avó Fernanda como não
falava há nunca e o sabor a amor na boca deu-me alguma paz mesmo dentro do
vazio.)
Entretanto a psicologia explica que a motivação e a emoção são dois conceitos
estreitamente relacionados entre si, e eu até já misturo os dois porque sem um
não existe o outro e eu às tantas já não sei qual o meu conceito afinal.
Concluo, enfim, que a minha verdade é que nem um nem outro me servem de muito
agora pois não preciso deles para rigorosamente nada. Precisar deles será
aleijar-me constantemente e eu não aceito que a vida me tenha trazido aqui para
que eu esteja constantemente de Betadine na mão
(Recuso-me!)
Não mesmo! Não quero cansar-me sem ser feliz e muito menos ser feliz sem me
cansar, e por mais falacioso que isto soe, a verdade é que é mesmo assim – não quero
lutar em vão.
Desespera-me a ideia de percorrer uma longa estrada para chegar a
lado nenhum mesmo que o lado nenhum seja algum lado, que se lixem as
filosofias, não quero ser em vão! E tenho esse direito.
Que se lixem os que me resumem ao drama à-la-Samuel Beckett pois na verdade
também eles debaixo das mantas choram a ausência do Ser, enquanto o vazio lhes
assola as noites em que se não sabem, nem encontram, num corpo tão frio que é
dormente, sem conseguirem adormecer, exaustos.
É... tantas pérolas a porcos como carne para canhão.
(Continuo-me,)
Perco-me em frases que não sei escrever, na continuidade que não sei ter,
na preserverança que pensava saber mas
não
sei.
Mesmo.
Atingi o limite sem passar fome – crucifiquem-me! – e não me apetece comer,
nem o ar que me lembra que existo.
Por vezes lembro-me do Além-Tédio
(não, calma! Esse não, outro)
do Dispersão do Mário Sá-Carneiro – e bem sei que lá me vou vivendo entre
os poetas da geração Orpheu desde que me sei escrever, mas foram eles que me
ensinaram o que ainda hoje não sei – em que ele remata com a quadra mais
simples e perfeita para este meu novo Estar:
Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...
Obviamente que acabou morto por cinco frascos de arseniato de estricnina,
tão extravagante na morte como em vida, mas isso são contos de outro rosário...
... aliás, permitam-me:
Eu não me mato por coisa nenhuma: eu
mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas,
numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída.
Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer.
in carta para Fernando Pessoa, 31 de
Março de 1916.
Trágico. Tão trágico quanto imbecil, diria. Mas belo.
E basicamente a minha vida resume-se a esta frase
inconsistente que acabei de escrever.
E, por favor, poupem-me às desgraças dos outros, cada um com as suas!
Sempre fui feita de inspirações e energia
(e vocês sabem disso, meus amores eternos, mas a questão aqui é que,)
creio que chegou a altura de assumir que enfim
tudo me foi vão, tal como o meu punho quando teima em prender areia, mas ela, teimosa, foge-me
sempre entre-dedos.
É isto mesmo.
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar,
cantou Jobim. E eu assim não gosto disto.
(Retiro-me.)