sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Acto L




Escrever um poema sobre algo que aconteceu
penso eu 
de que
deve doer mais do que realmente doeu.

Vai fazer dez anos que a minha avó morreu, 

e as ossadas têm que ser levantadas 
e encafoadas 
num “gavetão”.
Dizem que é a lei. E eu não sabia, não!
que existiam leis para os mortos.

Sei que ela não ia querer isto, 
pudesse a terra soltar-lhe a voz!
Lembro-me de ir de férias, 
à terra dos bisavós,
e aquele ritual eterno de se limpar a campa, 
meter flores novas, beijar a fotografia,
sentar ao lado a pensar sabe-se lá deus em quê, 
mas pensava-se, porra,
pensava-se porra
pensava-se porra!
podia-se pensar ali! 

naquele santuário meu, nosso e de quem mais por aí venha continuar-me o apelido...
como que uma árvore genealógica feita em mármore só nossa! 

pronto, está ali, é nossa! 
e nós cuidamos, é nossa! 

Que mania esta de nos ensinarem a cuidar do que é nosso
quando não lhes importa coisa alguma o que quer que seja fora deles - a minha avó não é um saco de ossos!
Este corpo é nosso, NOSSO!

Eu quero ter uma árvore genealógica feita em mármore para poder pensar
e saber que o não vou ter é como que me faltar 
o início de qualquer coisa, 
e é esta dor

porque dói!

é esta dor
que deve aleijar quando se escreve um um poema sobre algo que realmente aconteceu. 

Pudesse eu debater esta teoria com os Homens filhos da poesia
e talvez não passasse tudo de um poço de dilemas... 

já saberia eu que afinal não fui feita para escrever poemas.