O Bernardo Sassetti formulava, insanamente, uma linguagem que fosse comum entre a música Jazz e a música Clássica – deixando a improvisação de lado, mas fundindo a composição com a orquestração.
Ouvi-o eu ontem, numa entrevista de há 10 anos atrás.
Tive então a honra de ser escolhida pela Arte Sonora, para escrever um artigo para a revista, sobre a vida e obra do Bernardo.
«Não consigo» - pensei eu - «é demasiada coisa que eu desconheço.»
Verdade seja dita, senti-me pequenina, do tamanho de um Ré Menor. Mas não daqueles Rés Menores de um Scarlatti, ou de um Bach…. É mais como o Christopher Guest dizia, no seu papel em«This is Spinal Tap»; o Ré Menor é a mais triste das tonalidades..
E eu senti-me assim, triste.
Triste por ser sempre isto; esta mesma merda de só darmos conta do que perdemos depois das coisas desaparecerem. Triste, porque há quem hoje escreva muitas palavras bonitas, palavras sem fim sobre o Bernardo… mas na verdade, ninguém lhe conhecia a obra. Ninguém lhe conhecia a insanidade, a genialidade…. Portanto, ninguém lhe conheceu a morte. (ainda!)
Transformei-me então num pingo de suor, enlouquecendo em frente a um documento Word sem qualquer ponta de raciocínio. Procurei, li, pesquisei.... até que me perdi no Motion... e dali não saí mais.
Senti-me fraca por não saber ouvir. Por não saber entender. Por não saber mais do que achava ser suficiente.
Perdi-me no meu perder-me, ali.
E quando dei conta… a conclusão era óbvia. «Não é possível resumir num artigo a obra deste homem. Nem sequer é possível escrever num artigo a importância que ele tem na música. E ainda bem. É sinal que é infinito.»
Movimento infinito, é o Bernardo. E ninguém sabe nada sobre ele.
O meu artigo está publicado, na Arte Sonora que já se encontra nas bancas. Se puderem folheá-la, peço-vos que absorvam onde quero chegar: é que o infinito não se conhece. Assusta-nos.
E tal como ele, houve, há e haverão muitos artistas que nos assustam. Nós próprios, o podemos fazer. E não será prioritário que nos idolatrem, que nos (re) conheçam. Porque o Universo ... está-nos na garganta.