domingo, 26 de janeiro de 2014

Acto LV



Estou reduzida “a um espectador inútil, sofrendo o que se passa sem poder intervir, e a minha indignação e a minha angústia crescem.”





(Aguenta-te!)





Mas é difícil aguentar positivamente. “Noites sobressaltadas, despertares cansados, a raiva da injustiça. Vou arranjando forças para continuar a escrever mas esta pequena coisa dentro de mim tenta destruir-me a energia.”










Desde que me conheço que passo a minha vida entre as aspas de quem sente, aproximadamente, o mesmo que eu – digo, sem saber pois o mais certo é que - pode sempre ser pior ou melhor.

Vivo entre citações de escritores e poetas, cineastas e entusiastas de diálogos profundos, de músicos e letristas, por entre as mil fendas da calçada que vou palmilhando.

Existo-os, em mim.



Dá a sensação de que, na verdade, nem palavras minhas sei ter; nem pensamentos, sentimentos, sensações e emoções. Tudo é dos outros, e fundir-me é um processo doloroso. 
Orwell dizia; “os animais são todos iguais, mas há uns mais iguais que outros”, e ainda hoje me questiono se o mais igual é ser diferente e se o diferente não é, na prática, ser igual a todos.





(Fecho-me.)





Sinto-me tarde demais
Nem tão pouco seria como uma exaustão ciclica em que a implosão se torna numa descompensação momêntanea, não!, não é isso, é chegar a conclusões tão finitas que se tornam infinitas e aceitar o inaceitável. Esgotar a alma, a essência, o amor.





(Falo tanto de amor sem dar conta... até parece que nunca o tive... tive sim e tive sorte também. Ainda ontem falei da minha avó Fernanda como não falava há nunca e o sabor a amor na boca deu-me alguma paz mesmo dentro do vazio.)







Entretanto a psicologia explica que a motivação e a emoção são dois conceitos estreitamente relacionados entre si, e eu até já misturo os dois porque sem um não existe o outro e eu às tantas já não sei qual o meu conceito afinal. Concluo, enfim, que a minha verdade é que nem um nem outro me servem de muito agora pois não preciso deles para rigorosamente nada. Precisar deles será aleijar-me constantemente e eu não aceito que a vida me tenha trazido aqui para que eu esteja constantemente de Betadine na mão





(Recuso-me!)





Não mesmo! Não quero cansar-me sem ser feliz e muito menos ser feliz sem me cansar, e por mais falacioso que isto soe, a verdade é que é mesmo assim – não quero lutar em vão. 
Desespera-me a ideia de percorrer uma longa estrada para chegar a lado nenhum mesmo que o lado nenhum seja algum lado, que se lixem as filosofias, não quero ser em vão! E tenho esse direito.



Que se lixem os que me resumem ao drama à-la-Samuel Beckett pois na verdade também eles debaixo das mantas choram a ausência do Ser, enquanto o vazio lhes assola as noites em que se não sabem, nem encontram, num corpo tão frio que é dormente, sem conseguirem adormecer, exaustos.



É... tantas pérolas a porcos como carne para canhão.






(Continuo-me,)








Perco-me em frases que não sei escrever, na continuidade que não sei ter, na preserverança que pensava saber mas


não

sei.



Mesmo.





Atingi o limite sem passar fome – crucifiquem-me! – e não me apetece comer, nem o ar que me lembra que existo.
Por vezes lembro-me do Além-Tédio





(não, calma! Esse não, outro)





do Dispersão do Mário Sá-Carneiro – e bem sei que lá me vou vivendo entre os poetas da geração Orpheu desde que me sei escrever, mas foram eles que me ensinaram o que ainda hoje não sei – em que ele remata com a quadra mais simples e perfeita para este meu novo Estar:





Perdi a morte e a vida,

E, louco, não enlouqueço...

A hora foge vivida

Eu sigo-a, mas permaneço...




Obviamente que acabou morto por cinco frascos de arseniato de estricnina, tão extravagante na morte como em vida, mas isso são contos de outro rosário...

... aliás, permitam-me:




Eu não me mato por coisa nenhuma: eu mato-me porque me coloquei pelas circunstâncias – ou melhor: fui colocado por elas, numa áurea temeridade – numa situação para a qual, a meus olhos, não há outra saída. Antes assim. É a única maneira de fazer o que devo fazer.




in carta para Fernando Pessoa, 31 de Março de 1916.





Trágico. Tão trágico quanto imbecil, diria. Mas belo.
E basicamente a minha vida resume-se a esta frase inconsistente que acabei de escrever.

E, por favor, poupem-me às desgraças dos outros, cada um com as suas! Sempre fui feita de inspirações e energia 



(e vocês sabem disso, meus amores eternos, mas a questão aqui é que,)



creio que chegou a altura de assumir que enfim tudo me foi vão, tal como o meu punho quando teima em prender areia, mas ela, teimosa, foge-me sempre entre-dedos.

É isto mesmo.




A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar,



cantou Jobim. E eu assim não gosto disto.



(Retiro-me.)








quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Acto LIV





Li numa carta alheia a história do meu dia d'ontem.
Não era uma carta de amor,
nem tão pouco de despedida,

era uma carta sentida
a quem o sentido da vida
dorida e perdida
era igual ao meu.
(A quem no interstício entre dores de vida
o sentido sentiu-se
e decidiu des-sentir.)



O meu sentido perdeu-se
ontem.
Um dia ele volta a aparecer,
como quem teima em desaparecer
fugazmente,
e finge ser gente
dentro de gente

(e repito-me!)

efemeramente
e transversalmente
a todos os anos que por mim vão ficando.



Vão-me saíndo pela porta fora
em todos os anos que ficam em mim.



 
O meu sentido perdeu-se
ontem
mas hoje sei que é

         sempre

                  assim.








(Inspirado na carta de Fernando Pessoa a Mário de Sá Carneiro, 1915, intitulada postumamente, "Dói-me a Vida aos Poucos")