quinta-feira, 9 de maio de 2013

Acto XVLVI






Há uma certa náusea que me causa um estrago em (dó) sustenido, neste fôlego cansado de tanto sentir.
Por vezes apetece-me absorver o egoísmo.

Sim.


Apetecem-me paredes de vidro, daquele vidro que se deixa ver de dentro para fora, fumado a quem passa do lado de lá do mundo.
Apetecem-me muros no meu quintal, onde as flores são daquelas quase verdadeiras, das que fazem ouvir elogios de quem só olha.
Apetecem-me cercas de arame farpado, que na escuridão da noite se tornam invisíveis permitindo assim a luz de um sangue qualquer.
Apetece-me a minha casa. Seja ela qual for.

Sim.


Há uma certa náusea que me causa um estrago absurdo... que me racha a alma ao meio e me faz sentir inerte, dormente e morta.
Precisamente – nessa dormência – aí, nesse quarto fechado! Nessa tépida demência, nesse silêncio maldito, abafado! É aí!

Que partimos os vidros.
Que trepamos os muros.
Que destruímos as cercas.
Que saímos de casa...

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Acto XVLV






Há milhares de histórias de amor.
As que mais gosto são aquelas que estão por escrever.

(quais pedras no caminho 
que chutamos
tropeçamos
desprezamos
fotografamos
numa memória embrenhada em enredos
escritos por segredos
de amor que não volta a nós.)




Há milhares de histórias de amor.
As que mais gosto são aquelas que nunca Li.

(quais paredes brancas
que pintamos
sujamos
mijamos
e apedrejamos
num conto feito de personagens
que nos atravessam as paisagens
feitas de amor que nunca volta atrás.)