quinta-feira, 15 de novembro de 2007

ACTO XIII

«VINTE DE SETEMBRO, DOIS MIL E SETE,
QUATRO HORAS, MAIS TRINTA E SETE. »



É tão vasta a noite onde estou agora.
Tão despovoada.

A noite portuguesa tem o perfume a suor de trabalho, e o eco duro da miséria.
A noite parisiense transpira a vazio, ainda que pérola.
Mas a noite lancastriana concebe o silêncio.

Tento, em vão, ler para não ouvir o silêncio.
Pensar depressa para disfarçá-lo.
Cravar a vista no computador, inventando utilidades fúteis.
...Frágeis pontes, que mal liga ao subitamente horror do dia de amanhã.


Também tu és um silêncio que não dorme:
insone; imóvel; terrível.

És um silêncio sem promessas.
Um silêncio sem respostas.

Ardes, em silêncio,
em mim,
para mim,
de mim,
no momento em que anseio o tempo que não acabará, jamais.

O momento igual ao de tantos, que num hoje se estinguem grotescamente.

Os tais que se unificam para se aprenderem a desaprender, para que se aprendam eternamente.




(Se te não expressei o inexpressível silêncio que me és,
apenas me resta saber que te sou.
Eu sou.
Não sei o quê.
Mas sou.
E quero ser-te, comigo.)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

ACTO XII

(Perdoem-me o vídeo tão fora de contexto, mas era o único existente relacionado à música para este texto.)




Diálogo:

- De mim aprenderás a ter fé.
- A ter fé?
- A ter coragem de ter fé.
- Tenho muito coragem... mas... fé, em quê?
- Fé na própria fé.
- E isso é o quê?
- É um grande susto. Cair no abismo.
- ...
- Se tiveres medo de cair no abismo, agarra-te a uma das minhas mãos, enquanto a minha outra te empurra para esse mesmo abismo.
- E é isso ter coragem de ter fé?
- Não. A fé é o momento em que decides largar a mão que te agarra, e deixas-te cair.



- A necessidade suprema do ser humano é tornar-se um ser humano. -

segunda-feira, 30 de julho de 2007

ACTO XI



"-Não há nada mais horrendo do que uma gravata castanha sobre uma camisa violeta."

De acordo: violeta e castanho não combinam.
Contudo, esse «não há nada mais horrendo» é o índice de uma vulgaridade mental, pela qual se explica todo o mundo da mediocridade, formado por frases repetidas sem análise; de pensamentos não elaborados; de opiniões adoptadas sem discussão.

Educados nos fáceis heroísmos verbais, «dizem o que lhes vem à cabeça». E quando o dizem, a vilania com que o fazem não compromete nem sequer uma gratificação, um prémio ou um aperitivo. Não sabendo expressar um juízo com delicadeza, invocam a fórmula «eu sou sincero».

Ora, sinceros todos somos. Delicados, nem por isso.
Faz lembrar Clemenceau, que tendo de votar em público entre dois políticos que lhe eram completamente indiferentes, pôs de lado aquele que lhe disse «Você está a criar uma barriga feia». Não lhe seria uma ofensa grave, decerto. Mas a inconveniência de tal comentário ficou-lhe como uma cicatriz, no sítio que todos temos cá dentro.

Ferir com palavras é um crime medíocre.

E, se de Éden a Humanidade evoluiu para um isto; é o Éden que se culpa, certo?...


domingo, 22 de julho de 2007

ACTO X






Entrei numa livraria.
Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida.
Não chegam.
Não duro nem para metade da livraria.

Nisto chego à conclusão de que sou o resultado consciente da minha própria experiência.

Olho à minha volta; pessoas.
As pessoas multiplicam-se a olhos vistos. Porém, as paredes que as envolvem estão nuas como os seus muros; como um livro aberto sem nenhuma história para o se ler e/ou fixar.
As pessoas são telas. A maioria, por pintar.

De facto, AS PESSOAS QUE EU MAIS ADMIRO SÃO AQUELAS QUE NUNCA ACABAM.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

ACTO IX







Um jovem enojado do mundo e das suas futilidades, antes de se deitar nos trilhos da linha férrea onde o comboio o ia cortar em dois, tirou os sapatos, colocou-os sobre a relva, pensando que poderiam servir a alguém.

Erro de lógica:

Se o mundo é tão fútil ao ponto de sugerir o suícidio, não merece que se lhe deixe em herança um par de sapatos;

e, se no mundo, há uma pessoa, uma única, merecedora de um par de sapatos, ainda há no mundo alguém por quem vale a pena viver.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

ACTO VIII

(Dica: premir o botão "play" do vídeo, e ler este excerto de mim acompanhado da música.)



Reparo que a Humanidade está cansada de viver.
Está «carregada de dias».
Sente a atracção da tumba.

O Mundo inteiro está doente.

Os Homens abandonam-se ao caos.

O Homem já é como todos os outros animais;
do insecto ao boi;
da lagosta ao elefante,
cujo destino inevitável é NÃO morrer de morte natural.

E posto isto, deveria dar um título a estas pequenas notas. Talvez copie um das crónicas de sangue dos jornais - "Crime ou Suicídio?" - O que me parece menos grave do que roubá-lo a Dostoievsky:

Crime (dos pais) e Castigo (dos filhos).


Creio que nada mais me compete do que concordar com a conclusão brilhante de Jorge Bucay de que só não destruimos a vida mais depressa, porque ocupamos o tempo com a nossa própria estupidez.

Há pessoas que não pagam impostos, porque - que diferença faz?!

Há pessoas que não são amáveis, porque - quem vai reparar?!

Há pessoas que são mal-educadas, porque - ninguém quer ser o único idiota à face da terra!

Há pessoas que não se divertem, porque - é ridículo rir sozinho.

Há pessoas que só dançam numa festa, porque - houve alguém que começou a dançar primeiro.

E nós só não somos mais estúpidos, porque - não temos mais tempo...

sexta-feira, 25 de maio de 2007

ACTO VII




A razão pela qual sabes que existes hoje, é por saberes que amanhã podes não existir...

...disse-me ele, enquanto desaparecia ontem.


Somos apenas um momento na vida!
Vamos ser reis nem que seja por um só dia!

É tão mais complexo que isso...
Tão mais...

Não ter TUDO num agora é como não ter NADA a vida inteira.... insatisfação!


...é por isso que se sonha?...

sábado, 19 de maio de 2007

ACTO VI

«CITAÇÃO»


Vivo sempre no presente.
O futuro, não o conheço.
O passado, já o não tenho.
Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada.

Não tenho esperanças nem saudades.
Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje - tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade?
Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir.
Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim.

O meu passado é tudo quanto não consegui ser.
Nem as sensações de momentos idos me são saudosas:
o que se sente exige o momento;
passado este, há um virar de página e a história continua...

...mas não o texto.


Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego'






(Jethro Tull - "Living in the past")

terça-feira, 15 de maio de 2007

ACTO V

Passeio por um caminho solitário.
Desfruto do ar, do sol, dos pássaros
e do prazer de ser levada pelos meus pés
para onde quer que eles me levem.
De um lado do caminho
encontro um escravo a dormir.
Aproximo-me, e descubro o que está a sonhar.
Pelas suas palavras e expressões adivinho...
Sei o que sonha:

O escravo está a sonhar que é livre.

A expressão no seu rosto reflecte paz e serenidade.
Pergunto-me...
Devo acordá-lo e mostrar-lhe que é apenas um sonho,
para que saiba que continua a ser um escravo?
O devo deixá-lo dormir o tempo todo que puder,
desfruntando, nem que seja apenas em sonhos,
da sua realidade fantasiada?


Se o escravo for eu, não hesitem:

Acordem-me, por favor!




sábado, 12 de maio de 2007

ACTO IV

AMOR COMBATE

«Eu quero estar lá
quando tu tiveres de olhar para trás.

Sempre quero ouvir
aquilo que guardaste para dizer no fim.

Eu não te posso dar
aquilo que nunca tive de ti.

Mas não te vou negar
a visita às ruínas que deixaste em mim.


Se o nosso amor é um combate
então que ganhe a melhor parte.


O chão que pisas sou eu.
O nosso amor morreu.
Quem o matou fui eu.»


quinta-feira, 10 de maio de 2007

ACTO III

Quando cheguei ao aeroporto perguntei pela minha mala.

Disseram-me para esperar.

Cheguei aqui, a lado nenhum, e agora preciso da minha mala.
É simplesmente tudo o que tenho.

Espero.
Espero.
Espero.

Enquanto espero, passa-me tudo pela cabeça.
Não tenho roupas.
Não tenho nada.

O que vou fazer se ficar sem a mala?

Após largas horas, vem alguém ter comigo:
«É esta a sua mala?»

É, sim.
Que alívio!


Conclusão: após 4 horas à espera da mala, o desespero apoderou-se de mim. Tudo por causa duma mala, onde nem um terço da minha vida lá caberia.







quarta-feira, 9 de maio de 2007

ACTO II



«Finalmente tenho algo de valioso só para mim.
Algo meu.
Só meu.»,

pensei eu enquanto olhava a montanha de ouro.


Quem possui quem?

ACTO I

«O Início»


Uma fábula.
Um conto.
Uma história caricata.

Podem ser cem vezes mais fáceis de apreender do que mil explicações teóricas, interpretações psicanalíticas ou explanações formais.

Apenas porque se ouvem, e/ou lêem com gosto.