(Como sempre, o relevante é a música, e não o vídeo que a acompanha.)
Amor. Definitivamente decidi não me suicidar. Quero poupar todos de interrogações e dúvidas sobre o porquê de tal acto.
«não era pessoa para matar-se», «foi sempre boa rapariga», «tinha uma vida feliz», «tinha uma família e amigos que a amavam».
Como vês, amor, preocupei-me antecipadamente com o que seria a tua aflição e esforço que terias de fazer para repetires a frase «não percebo».
Poupo-te, assim, os remorsos de saberes que eu não suportava mais resumir-me à minha própria insignificância.
Como vês, amor, esta é mesmo uma boa acção.
Como ias tu aguentar, amor, sozinho, aquela outra raça dos meus amigos pseudo intelectuais e sem-rumo, ou simplesmente desconhecidos para ti, a dizer-te que desde há uns tempos «pressentiam» que eu andava deprimida?
«andava ansiosa, perturbada, a responsabilidade, o peso de qualquer coisa que não sabemos, atingiram-na».
Etc.
E tu escutavas, amor, como quem não sabe, e respondias com mais interrogações ainda, como se não soubesses que eu ia dar um tiro na boca por isso; pelo simples peso das coisas que têm de ser feitas.
Sabias que não era por isso. Mas sabias também que não era por eu ter de cozinhar para ti, aquando as vezes em que quis o contrário. E não ia suicidar-me, também, por ter de rever os meus comportamentos em função daquilo tudo em que acreditas, para me tentar encaixar em ti.
Que motivos teria eu para me suicidar?
Talvez pensasses «a escrita». A escrita era a sua fuga, e não mais escreveu desde que eu deixei de a ler. Mas não. Não era por isso que ia suicidar-se.
Como vês, amor, estou a poupar-te a tantas interrogações...
Definitivamente decidi não me suicidar mesmo. Nunca aceitaria que passasses a vida a viver na dúvida sobre o meu destino, sobre se a Alma existe ou não, sobre o Além, sobre a outra vida em que sempre acreditei, e que para ti nunca existiu.
Só que nestas alturas, até os incrédulos se interrogam. E interrogares-te sobre se o meu fim era misturar os meus ossos pura e simplesmente com a terra e nada mais, ou se estaria a ser feliz em outro lado... isso ia mirrar-te os dias. Ia fazer-te sofrer.
Estás a ver agora, amor, porque decidi não me suicidar?
É que se algum dia descobrisses que Deus existe, sentir-me-ias viva, e nunca mais serias livre.
Como vês, até nisso pensei.
Definitivamente decidi não me suicidar. Parei então de pensar, e comecei a amar-te.
(Um muito obrigada à existência de A.S.Gomes)
Engulo em seco, porque dói.
ResponderEliminarPor vezes pergunto-me se aquilo que escreves é baseado no que vives... Demasiado realista, pesado, intenso...
ResponderEliminarGosto imenso.