quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Acto XLVI





O Natal já acabou.
Não hoje,
mas há cerca de 7 anos.

Pelo menos para mim,
que já não tenho a Avó na cozinha do rés-do-chão esquerdo
do antigo Lote 78
a fritar sonhos.


E foi nesse decorrer da minha vida
que nunca ninguém conhecerá pelas entranhas
que vivi momentos só meus.

É o meu único bem material.
A minha vida.

Fodam-se os Euros na conta bancária,
mais a merda do conforto.
Fodam-se mesmo.

A minha vida vale bem mais que isso.

Contudo, não sou otária,
e nesta vida
ordinária
sei bem o que preciso ter
para ser
aqui,
acolá,
patati
patatá
blá
blá
blá...



Mas voltando à minha vida...



... sei-a bem.
De cor e salteado,
do mais forte ao mais desesperado,
do amor à dor,
da vida à morte.
Sei-a bem.
Sinto-a a correr-me nos sonhos.

Acredito, pois, na existência de alguém que surge
e urge em encaixar-me
como uma peça

essa
que ninguém acredita que existe
mas insiste em fazer de nós parvos.

Tolos,
idiotas
em busca de um amor eterno
cuja eternidade não passa de uma palavra
perdida no infinito d'ela mesma.


Idiotas,
mas urgentes.
Patetas
indecentes
com a líbido em código vermelho.

Fora isto e aquilo,
que vivi e morri
sou uma peça
que hoje encontrou outra peça
giratória
na oratória de quem perdeu
mas nunca foi derrotado.



4 comentários:

  1. Fellini disse, «Fate is written in the face.»

    Aqui está: in your face, o que muitos perderam.


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    1. Sim, mas este texto é mais "in your face, para quem ganha."

      :)

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  2. Bom para ti e para o lucky one.
    vê lá se não te enterram...

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  3. É mais lucky me, neste caso, e gosto de me deixar enterrar. Boa sorte com o teu ócio, sejas quem fores.
    Boas entradas!

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Escreve, escreve, bandido