Escrever um poema sobre algo que aconteceu
penso eu
penso eu
de que
deve doer mais do que realmente doeu.
deve doer mais do que realmente doeu.
Vai fazer dez anos que a minha avó morreu,
e as ossadas têm que ser levantadas
e encafoadas
num “gavetão”.
Dizem que é a lei. E eu não sabia, não!
que existiam leis para os mortos.
Dizem que é a lei. E eu não sabia, não!
que existiam leis para os mortos.
Sei que ela não ia querer isto,
pudesse a terra soltar-lhe a voz!
Lembro-me de ir de férias,
Lembro-me de ir de férias,
à terra dos bisavós,
e aquele ritual eterno de se limpar a campa,
meter flores novas, beijar a fotografia,
sentar ao lado a pensar sabe-se lá deus em quê,
sentar ao lado a pensar sabe-se lá deus em quê,
mas pensava-se, porra,
pensava-se porra
pensava-se porra!
podia-se pensar ali!
pensava-se porra
pensava-se porra!
podia-se pensar ali!
naquele santuário meu, nosso e de quem mais por aí venha continuar-me o apelido...
como que uma árvore genealógica feita em mármore só nossa!
pronto, está ali, é nossa!
e nós cuidamos, é nossa!
Que mania esta de nos ensinarem a cuidar do que é nosso
quando não lhes importa coisa alguma o que quer que seja fora deles - a minha avó não é um saco de ossos!
Este corpo é nosso, NOSSO!
Eu quero ter uma árvore genealógica feita em mármore para poder pensar
e saber que o não vou ter é como que me faltar
o início de qualquer coisa,
e é
esta dor
porque dói!
é esta dor
que deve aleijar quando se escreve um um poema sobre algo que realmente aconteceu.
Pudesse eu debater esta teoria com os Homens filhos da poesia
e talvez não passasse tudo de um poço de dilemas...
já saberia eu que afinal não fui feita para escrever poemas.
Foda-se, Li !
ResponderEliminar...
Li e reli!
ResponderEliminarNão fosses tu a minha "leitora" preferida.
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