segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Acto XLI

Isto não é uma queixa.
How come I cannot see my future within your arms...









A mim o que me interessa é que tenho de pagar 20€ nas urgências do Hospital Público, onde há quem morra à porta, por falta de notas no banco. O que me interessa é que tenho de pagar 70€ de passe, para chegar a Lisboa, e se os não tiver por algum custo extra – sou despedida, por faltas injustificadas. 

Interessa-me que eu tenha desistido de estudar, por não ter 900€ para vos oferecer, de 3 em 3 meses. Porque para o ter, tenho de trabalhar. E para trabalhar, tenho de arranjar emprego. E o que me interessa é que emprego, não existe. Existe trabalho, precário. Daquele que te prende atrás de um balcão 9 e 10 horas por dia, onde és tratado que nem um animal, para receberes 500€ ao final do mês. E o que me interessa é que desses 500€, 300€ são para a renda da minha casa. Casa que tenho de partilhar com alguém, porque tê-la sozinha é impossível – a não ser que alugue um quarto numa casa anónima cheia de gente estúpida. E o que me interessa é que não me consigo ver livre de dívidas e coisas para pagar, ainda que não tenha feito nenhum empréstimo. É que basta-me ir ao café mais de 3 vezes por mês para ficar a zero ao dia 18 – quando até me apetecia comprar uma tinta para o cabelo para disfarçar as russas, que tanta gente gosta de criticar e fazer troça de.
O que me interessa é que eu gostava de vestir uma camisola nova, e ter uns brincos giros a condizer, ou até fazer uma viagem nem que fosse até ao Porto. Interessa-me que isto que quero não é bem um luxo, é um viver-me em detalhes meus.



A mim o que me interessa, é que eu estou onde nasci, e não tenho nada que sair daqui, porque quem está mal não sou eu.



Interessa-me que haja gente como tu, sempre pronta a apontar o dedo, vendo passar a vida enquanto acusa os outros de se queixarem sem razão. E a mim o que me interessa, é que vocês são então os cabrões que nos levam a esta miséria - é que eu nasci, fui educada, estudei e trabalhei. Até emigrei, e depois voltei, onde trabalho, luto e faço…. Por isso tenho, SIM, direito ao que é MEU.
A mim o que me interessa é que a revolução está a caminho; consigo cheirá-la no som do cansaço. E naquele dia em que ela chegar, haverão sempre vós - os que não acreditam. Interessa-me, pois, que esta falta de crença seja a doença do milénio, onde a vacinação é à base do assalto à mão (des)armada. Vacina esta, comparticipada, onde há filas de espera à beira do sofá.

A mim o que me interessa é que vós vos interesseis por vós mesmos. Interessem-se pelo que me interessa, a mim, a ele e a ti, E apaixonem-se pelas vossas lutas.












7 comentários:

  1. CARALHO!!!
    É mesmo esta a palavra!
    Nascemos, filhos duma geração que fodeu isto tudo. É apanhar os calhaus e construir nova casa. TEMOS DIREITO A SONHAR!
    6ª feira vejo-te lá, companheira!

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  2. Muito bom Li, a realidade que os governantes teimam em não querer ver. E a que alguns escapam porque no fundo não são verdadeiramente independentes e daí criticam quem luta pelos seus direitos. Ambos sabemos que as coisas vão mudar, é como dizes, cheira-se já o cansaço de quem sempre cumpriu os seus deveres e viu esfumar-se o futuro.

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    1. Bubu... a tua última frase meteu-me lágrimas nos olhos. Nós que sempre andámos distantes, ainda que juntos no mesmo pensar. Estivemos lá fora, naquele frio que não é nada nosso, e que muitos sabem que nos aleija a Alma com a ausência de detalhes nossos. Somos o que fazemos, o que criamos, o que sonhamos. Estou cansada também. E desde que o Waters trouxe aquele novo muro, que ando com um vazio que precisa, urgentemente, ser preenchido.
      Together we stand. Divided we fall.

      Até já*

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  3. Tu és a paixão de quem te lê miúda!

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    1. Somos todos paixões de alguém, desde que nos mantenhamos apaixonados! Beijinhos*

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Escreve, escreve, bandido