sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Acto XLV


Nunca tive coragem de ter coragem.
Talvez porque sempre tive medo de ter medo.
Engraçado...
 Pensava que era a única pessoa neste pêndulo idiota.










Ouviam-se os passos, descalços, de encontro à janela aberta de uma sala despida de emoções. São quadros, frios e intercalados por paredes brancas – daquele branco que não ilumina nada, sem ser o vazio de um ego morto – a par com estantes vazias de livros.
Há quem diga que uma casa sem livros é uma laranja sem sumo. (Na verdade, sou eu que digo isso. Acabei de o pensar.)


Não interessa.


O que interessa é que nem sequer encontro um motivo para que uma casa tenha de ter livros. Talvez pelo hábito de os ter nem que seja a ganhar pó na casa da mãe, do avô, da tia, na minha. Um hábito que me veste o corpo com páginas aleatórias de onde retiro um excerto qualquer.
Por vezes acontece.
Olho para um, respiro-lhe o folhear das páginas e paro na cento e tal.



«Acho que a minha mãe sempre foi fiel à infidelidade do meu pai, e escolheu a castidade. A castidade da minha mãe era pior do que a de uma virgem, porque ela conheceu o prazer por alguns meses, e depois… ele renunciou-a para toda a vida.»
Reinaldo Arenas.




Curioso. Tem sido assim com o resto da minha vida.




Ouvem-se então os passos. Descalços.
Tiro os sapatos, e massajo os pés numa banalidade inquieta – num desassossego interior. Olho o relógio e noto que o tempo passa a correr. Corre a passos largos por não ter notícias tuas.



Notícias de quê?
De mim, em ti.



Merda! Passamos a vida nisto. Num turbilhão impetuoso de quem finge saber o que quer
de quem finge dizer o que pensa
de quem finge ser o que sente
Quando na verdade vamos dando passos para trás, com as mãos à frente da cara em desequilíbrios no escuro de uma casa vazia e sem luz.


Não há luz nesta sala.
Só existem pedaços de coisas mortas de uma vida que nunca existiu, num suor frio em pontas numa corda bamba à beira do abismo.
Tenho a garganta seca, mas não suporto a ausência de odor na água… prefiro morrer sedenta. Tenho a garganta seca pois sinto os empurrões, cada vez com mais força, e eu vou caminhando para trás, ao compasso do retrocesso,
dando lugar à simetria,
assassinando a harmonia.
Como os quadros frios e intercalados pelo frio das tuas paredes brancas.
Simétricos, mas indolentes.



Esta sala é fria. E começa a magoar-me o afecto. Preferia não me sentir tão bem nela, por mais vazia que me faça sentir por vezes.




4 comentários:

  1. Subscrevi-te “Nas Entrelinhas” , e nunca mais apareceu nada! Onde está esse blog?

    reencontrei-te no melhor texto que li nos últimos 2 ou 3 anos, Liliana….
    Não caminhes para trás! “Põe-te a andar”! É mais seguro. (Que deja vu de sugestão hehehehe!)

    Estou em Lisboa até dia 22, mando-te e-mail com o meu número para bebermos uma cervejita. É que eu não uso a treta do facebook !!!
    Beijinhos

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  2. Oh! João... :')

    Deja vu mesmo!!! Obrigada pelas palavras.

    "Nas Entrelinhas" está em formato físico :) Publiquei, pela experiência. Depois conto-te tudo!!!

    Manda, sim: li.triplicarte@gmail.com

    Beijos, mil*

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  3. És tão bonita. Por dentro.

    «Retrovertigo» ;)

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Escreve, escreve, bandido